REVIEW: INTERPRETAÇÕES DO SER E DO DEVIR by Virgílio Ferreira

por Pedro Leão Neto

 

Simultaneamente formal e conceptual, o trabalho fotográfico de Virgílio Ferreira cria uma poesia moderna própria, questionando de forma crítica e imaginativa o nosso momento atual e, neste caso em particular, a diáspora portuguesa no mundo.
Na série “Being and Becoming” (Ser e Devir), aqui publicada na coleção “scopio Projects”1, é a natureza enigmática das imagens, bem como as duplas exposições, composições finais e dípticos que libertam o autor das convenções rígidas do realismo e da composição fotográfica tradicional. Esta exploração específica do meio fotográfico é bastante interessante: a exposição múltipla e justaposição criam uma narrativa visual ficcional muito pessoal sobre os nossos territórios, o nosso tempo e o sentido da vida do ser humano neste mundo.

A série de Virgílio Ferreira é uma obra aberta2, um imaginário poético estruturado em dípticos, que colocam, lado a lado, imagens não convencionais, fazendo colapsar o tempo, a memória e a existência da diáspora portuguesa, e desafiando deste modo, através de novas formas, os limites de indexação da imagem fotográfica e do processo da memória despoletado pela fotografia.
O tratamento técnico e elegância de Virgílio Ferreira fazem com que as suas narrativas visuais sejam esteticamente únicas, com uma identidade e poesia próprias. É importante realçar como o trabalho de Virgílio, principalmente a partir de “Daily Pilgrims”, se tem vindo a posicionar de forma mais notória no campo internacional da ‘arte contemporânea’, reinventando de forma continuada a sua expressão, explorando criativamente a fotografia para melhor transmitir os seus sentimentos e postura crítica em relação ao nosso mundo atual multifacetado e complexo e, neste caso, ao mundo psicológico e existencial das pessoas provenientes da diáspora portuguesa.
Virgílio é também um fotógrafo-artista que se posiciona no mundo da arte contemporânea como um autor muito comprometido para com o universo da fotografia, para quem os aspe- tos formais e técnicos da fotografia desempenham um papel importante e definem de forma relevante o universo conceptual dos seus projetos, o que significa que está mais próximo do tratamento técnico e da estética de nomes como Harry Callahan3 – que também fez experiências com justaposições e múltiplas exposições – ou de outros autores mais recentes, muito diferentes entre si, mas com quem se pode relacionar devido às suas estratégias artísticas e plásticas aplicadas à fotografia para questionar a realidade e a nossa cultura. Veja-se, por exemplo, artistas contemporâneos como Idris Khan e o seu uso da múltipla exposição despojando os significantes temporais e fazendo ruir o tempo e espaço das imagens das fábricas industriais de gás de Bernd e Hilla Becher4, ou as turvas paisagens urbanas de UtaBath5, ou até mesmo as séries fotográficas inovadores de Helen Sear que têm em comum com a obra de Virgílio a experimentação e as estratégias inovadoras aplicadas à fotografia para assim questionar o próprio mecanismo da visão e desafiar as nossas certezas culturais, o tempo histórico e a nossa consciência.

Pode-se dizer que, dentro deste quadro fotográfico individual e contemporâneo, Virgílio Ferreira é não só capaz de ir para além da representação tradicional, quando esta é entendida como indexação e rigor visual relativamente ao seu objeto, mas também de nos oferecer um vislumbre quanto ao retrato espiritual e existencial da matéria abordada. A fotografia, como sabemos, não é um meio capaz de representar com precisão a realidade6. A série de Virgílio Ferreira confirma essa ideia muito contemporânea uma vez que desafia certezas com um conjunto de imagens que criam, ao mesmo tempo, um documentário social e uma narrativa visual artística, abordando o universo migratório português de uma forma metafórica e indeterminada; é uma obra de arte social aberta, em que cada um de nós é livre de criar a sua história revelando mais do que aquilo que é apenas real, fazendo-nos sentir e compreender de uma forma muito pessoal e poética como a diáspora portuguesa e a vida fazem parte de um mundo global.