UMA ARQUITECTURA SUSPENSA NO ESPAÇO E NO TEMPO COMO OS SEUS HABITANTES

por Maria Joana Vilela

 

sobre "Mapa-Museu" de Nuno Lacerda

 

Ver no mapa é encontrar a localização. Estar no ponto do mapa é perder a localização. Perde-se a ordem e o enredo geográfico, isola-se a vida do resto do mundo. Segue-se, mas noutro tempo.

Habitar um lugar é perder-se o sentido do todo, porque estar no lugar implica que nos localizemos aí, que atendamos ao espaço que percorremos, ao cheio e ao vazio, às dimensões, àquilo que o constitui, e ao nosso corpo em relação com esses; implica que nos separemos de um certo tempo, habitual, e que sigamos a um outro ritmo. Isso prende-se com a atenção. A atenção é que altera a percepção do tempo vivido. Se se a desloca para o corpo, sobre o corpo na relação com o espaço, sobre o corpo a ser aí, focam-se a presença e o tempo interior – o homem, homem-relógio, homem-vida -, desfoca-se a visão do espaço circundante e dilui-se a passagem do tempo, ou seja, “lentifica-se” a sensação e a representação da experiência.

E é sempre assim, pois só esse tempo que a atenção detém e regula é que permite que se conheça o lugar que o corpo experimenta e que se (re)conheça o corpo que o lugar acolhe.Recíproca potenciação: para além da textura das superfícies, dos limites do espaço, daquilo que o compõe, que o organiza, o homem sente também a pele que o toca; dá conta da pele que o toca e dos ouvidos que o escutam e das pernas que o percorrem.

No lugar e na acção de o (re)conhecer encontram-se os vestígios de certo eu. Vestígios de uma existência actual, presente ali mesmo. Alguém atravessa o tempo numa bolha de outro tempo, procurando desvendar um só enigma: o enigma da existência. O lugar circunscreve a experiência e permite o encontro do homem com o homem. A arquitectura, em particular, oferece ao homem um espaço de encontro consigo mesmo e com o mundo nas suas especificidade microscópicas. Este é o universo da experiência. É o universo do conhecimento.

Neste sentido, a arquitectura potencia-o, ao conhecimento, pela intensificação da experiência e pelo encontro do homem consigo mesmo. O lugar (construído) “protege-o”, ao homem, das relações extra-espaciais que lhe desviam a atenção. O lugar acolhe a experiência a partir de dentro, numa viragem para o interior, numa relação intrínseca e privilegiada com o corpo que o contamina e o preenche de todos os sinais vitais. São do corpo todos os sons do lugar. É do corpo a atmosfera do lugar. Experiência encerrada, suspensa de tudo o resto. E flutua.

Cada lugar habitado ergue-se assim como uma bolha que se move lentamente entre outras experiências do espaço vivido, acontecendo. São muitas as esferas, leves, circulando aí, desafiando a gravidade. Fecham-se sobre si próprias, enquanto simultaneamente constituírem um mesmo espaço infinito regulado por uma linha temporal que o atravessa longitudinalmente. A paisagem compõe-se do movimento demorado dos lugares, estruturada por certas tangentes que se cruzam e que regulam o complexo caótico.

Assim, vislumbra-se um esquema novo. Outro mapa. Universal do universo todo, da experiência possível. Um mapa verdadeiro, mas mais interior, animado por bolhas microcósmicas da experiência de cada lugar do espaço conhecível. Ver o mapa é olhar para e de fora. Estar no mapa é olhar de dentro e para dentro, é saber-lhe e é dar-lhe o sentido.

 

 

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