1 PHOTO(GRAPHER): JOÃO CARMO SIMÕES

de Hugo Oliveira

 

HO: Onde é que foi tirada esta fotografia?

JCS: Numa pequena sala do novo Museu dos Coches em Lisboa.

HO: Quando foi tirada?

JCS: Em 2013.

HO: Quais eram as condições no local?

JCS: A sala estava apenas iluminada com luz zenital que entra pelas enormes clarabóias brancas, o museu deserto, um segurança acompanha a visita, silêncio.

HO: Existem aspectos técnicos na captura e revelação da fotografia que queiras referenciar?

JCS: Fotografia capturada com tripé e lente grande angular.

HO: Como foi feita a entrada no local?

JCS: Através do arquitecto Paulo Mendes da Rocha, foi uma visita planeada para fotografar o edifício.

HO: Já tinhas estado nesse local anteriormente?

JCS: Já tinha estado durante a obra pelo menos duas vezes e outra com a obra já mais finalizada.

HO: Porque escolheu esta imagem? O que há mais interessante nela?

JCS: Procuro fotografias que não se imponham pela espectacularidade, pelo contrário procuro imagens que através do silêncio nos falem da particularidade da arquitectura. Encontrei então esta imagem que me pareceu um pouco enigmática e com isso questionadora da própria arquitectura. Procuro não uma demanda à abstracção, mas intenção de nos aproximar da arquitectura de a questionar, de a tornar um pouco mais inteligível e consciente. E então estamos numa pequena sala de um grande edifício, concentrando-nos numa direcção, vemos um vão rasgado na diagonal, uma grande peça metálica diagonal. Num primeiro raciocínio poderíamos questionar-nos sobre o porquê destas diagonais e daí poderíamos rapidamente tirar entendimentos formalistas sobre a diagonal. No entanto, se digerirmos um pouco o que vemos procurando relações no todo do projecto, talvez nos aproximemos mais desta arquitectura, deste edifício.

O desenho da abertura diagonal iluminada à nossa esquerda, corresponde à abertura de um vão numa parede que é uma enorme treliça metálica. Ainda à esquerda mais próximo vemos parte de uma enorme cruz que faz o contraventamento (travamento horizontal) das grandes paredes vigas que suspendem todo o edifício.

Assim olhando para a arquitectura com a vontade de a compreender descobrimos aqui que mesmo numa pequena sala, nuns aparentes pequenos pormenores, conseguimos vislumbrar parte do todo unitário que configura o projecto, e que nele se manifesta. Descobrimos a relação das partes com o todo no entendimento da arquitectura do edifício. Não é portanto uma questão unicamente visual, ou teórica, ou formal, mas sim construtiva e por isso arquitectónica que procuro.

João Carmo Simões é um fotógrafo de arquitetura português.

A imagem e entrevista seleccionadas fazem parte do projecto editorial "1 Photo(grapher)".