FOTOGRAFIA DE ARQUITECTURA: OS OLHARES COMPLEMENTARES DE UM FOTÓGRAFO EM CONVERSA COM UM CURADOR

com o curador português Pedro Gadanho e o fotógrafo italiano Paolo Rosselli

 

No dia 30 de Outubro, decorreu a segunda sessão do Ciclo de Conferências AAI-Arquitectura, Arte e Imagem, na Casa das Artes, no Porto organizado pelos arquitectos Camilo Rebelo e Pedro Leão Neto, em parceria com as edições scopio e o grupo de investigação CCRE (FAUP) e ainda com o apoio institucional da Casa das Artes. 

Para esta segunda sessão foram convidados o curador português Pedro Gadanho e o fotógrafo italiano Paolo Rosselli que desenvolveram uma conversa em torno da fotografia de arquitectura, com enfoque na obra de Rosselli.

De um lado, esteve Pedro Gadanho, um profundo conhecedor dos diversos enredos que pontuam este universo da fotografia de arquitectura, evidenciando uma postura muito inteligente e serena, sem alguma vez deixar a conversa resfriar ou que fosse conduzida a um ponto sem saída, intervindo pontualmente sem nunca procurar sobrepor-se ao convidado italiano. 

Assumindo o papel de um quase-anfitrião, Gadanho fez questão de salientar o seu interesse pela obra de Paolo Rosselli, sobretudo por haver nela um lado humanizado e quotidiano que, normalmente, não é tratado com profundidade pela abordagem mais tradicional da fotografia de arquitectura. Segundo o curador português, as publicações main stream apresentam um excessivo enfoque e preocupação com as questões estéticas e construtivas da arquitectura, criando muitas vezes imagens estereotipadas e sem a inteligência e sensibilidade necessárias para compreender o espaço arquitectónico e o lugar onde se insere. Nas próprias palavras de Gadanho, essa prática recorrente “tende a ser exaustiva, no sentido de retratar um edifício de todos os ângulos possíveis e de tentar dar uma espécie de falsa objectividade desse edifício ou arquitectura” utilizando certos “truques que resultam muito estranhos, como tentar remover as pessoas” e, sobretudo, “tentar obliterar a Cidade do olhar da Arquitectura”, muito por influência do “desejo dos arquitectos em estetizar a sua própria produção e de a tornar algo abstracto, desprovido de qualquer aspecto quotidiano”. Gadanho acredita que a fotografia de Rosselli está nos antípodas desta abordagem mais recorrente e comum, oferecendo-nos um entendimento da arquitectura e do espaço de forma mais rica e aprofundada, por meio de uma estratégia compositiva e artística que resulta em imagens críticas que nos proporcionam um novo olhar sobre a arquitectura e a cidade através de imagens cuja lógica de enquadramento e plasticidade captam com sensibilidade e inteligência a emoção, a vivência e a configuração do espaço de arquitectura. 

Do outro lado, Rosselli trouxe à discussão um tom esclarecido, relembrando que a fotografia de arquitectura não deixa de ser, antes de mais, fotografia e que a sua abrangência e possibilidades não são restritas mesmo que caibam dentro de uma determinada categoria, entre outras tantas, quando tratamos de Fotografia. Segundo o fotógrafo italiano, a abordagem à fotografia de arquitectura não deve ser feita de uma forma técnica mas sim pessoal, encontrando nesse princípio a motivação para a sua procura constante de uma nova relação com a arquitectura pela fotografia. Curiosamente, essa nova relação não se estabelece, no seu caso, por meio do estudo de arquitectos mas antes por inspiração directa na literatura ficcional, apurando uma espécie de filtro, próprio de romancistas e poetas, que lhe permita discernir de que modo e o que captar ou não em fotografia - neste ponto, aproxima-se muito do conceito quase epifânico de punctum, que nos apresentou Roland Barthes - assumindo despreocupadamente que para si "o mais importante é, acima de tudo, ler livros". 

Talvez seja desse universo literário que provenha o seu gosto pela fusão por camadas entre objectos e fragmentos na sua produção fotográfica, tornando-se quase um padrão na sua obra a combinação de elementos que, à partida e por uma certa inerência, não combinam: "é o meu processo", diz-nos Rosselli, "sou muito tolerante em fotografia" - uma tolerância que leva ao ponto da intervenção gráfica a posteriori sobre a imagem captada, sem qualquer atitude purista. É neste limbo, nesta indefinição, que se revela o quão a fotografia é para Rosselli um instrumento de descoberta não só do mundo e da arquitectura mas também de si mesmo, à medida que se vai dando conta de determinados paradoxos selectivos pessoais, como é o caso da sua aversão aos automóveis na vida real em contraponto com a introdução nas suas composições fotográficas desses mesmos automóveis, considerando-os uma mais valia; ou então, o seu desdém por 'ir às compras' que se contrapõe com um certo fascínio pela captura fotográfica de locais de comércio.

Em paralelo, ou, talvez, em consequência da sua abordagem pessoal e não meramente técnica, Rosselli assume, mesmo até com um certo prazer, uma faceta voyeurista - para lá do voyeurismo que é indissociável do acto fotográfico - por dar a entender ao fruidor estar sempre, de uma forma subliminar, presente nas suas fotografias, sem que a câmara capte partes da sua fisionomia, por exemplo. Houve, ao longo do seu discurso, alguns indícios de que esse efeito, que essa impressão implícita na sua obra, estará profundamente relacionada com uma mundivisão muito própria, de uma ligeireza muito sábia e experimentada, quando diz "eu não quero ser sério; a vida é séria mas eu gosto de ser engraçado".

Não obstante ligeiro, Rosselli não foi, em momento algum, superficial nem unilateral quanto à sua postura mais pessoalista e íntima para com a fotografia de arquitectura. Um dos pontos em que mais insistiu, logo desde início, foi na relação umbilical entre o fotógrafo e a máquina fotográfica - uma discussão já antiga sobre Arte e Técnica mas cada vez mais actual e pertinente - dando notas sobre o seu longo estudo e questionamento quanto a essa relação entre Homem e Máquina. "Desde que comecei a fotografar", diz Rosselli, "comecei uma competição; quem está a fazer fotografia: a câmara ou o Sr. Rosselli?". Dessa inquietude, que não desvirtua em momento algum o seu legado enquanto autor, sai, estoicamente, em defesa da Técnica: "A câmara não é um objecto estúpido. A câmara vê mais do que o fotógrafo.", até porque, admite,"eu tenho muitos preconceitos mas a câmara não(...) a câmara é mais livre do que o Sr. Rosselli".

Abordaram-se ainda outras questões essenciais como o processo de desconstrução das convenções em fotografia de arquitectura, a maneira de ler o espaço, a relação com o observador, a interpretação de imagens ou mesmo a implicação de duas autorias em conflito - a do arquitecto e a do fotógrafo -, sempre com uma mente aberta e sem pré-juízos rígidos, numa clara procura de apontamentos oriundos de uma experiência prática e das reflexões que essa prática proporcionou, quer do ponto de vista do fotógrafo, quer do ponto de vista do curador. 

Na parte final do debate, Gadanho introduziu algumas ideias importantes relacionadas com as lógicas de representação ligadas ao universo da fotografia de arquitectura. Salientou a relevância e interesse de ter surgido, em determinada altura, uma perspectiva e modus de trabalho que tentou ser mais diversificado, indo para além de uma certa representação tradicional de Arquitectura. Trouxe de volta a ideia de que a Arquitectura é verdadeiramente uma produção de cultura, tornando-se necessária esta interpretação enriquecida de outras quadrantes, por ela contribuir para a sua abertura – no sentido da obra aberta de Umberto Ecco. A prática e a disciplina da Fotografia permitem esta expansão, através da representação de um outro olhar que diverge daquele com que os arquitectos gostariam de ver representado o seu trabalho, criando um espaço mais rico de representação e interpretação do trabalho de Arquitectura que não termina na auto-representação do arquitecto, assumindo-se como um trabalho de interpretação per se.

Muito mais um dueto do que propriamente um duelo, este encontro de pouco mais de duas horas entre o curador português e o fotógrafo italiano, contribuiu significativamente para lançar luz sobre algumas particularidades menos óbvias no campo da Fotografia de Arquitectura, nunca perdendo o teor ensaístico que se requer quando duas individualidades se cruzam. Sem dúvida, um documento valioso.

 

 

Author 
Mário Carvalho (colaborador da scopio network)  

Editorial review
CCRE/FAUP (Editorial Department, scopio Editions)  

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